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Risco
no crédito para carros
A facilidade de liberação de crédito para a compra de veículos e os longos
prazos desse tipo de financiamento podem gerar crise nesse mercado no País, de
acordo com economistas como Carlos Lessa, ex-presidente do Banco de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O temor é de que o aumento do
endividamento do consumidor brasileiro – que também faz outras compras
parceladas – provoque uma onda de inadimplência difícil de administrar. Nos EUA,
a concessão de empréstimos para aquisição de imóveis a pessoas com histórico de
problemas de crédito foi o que desencadeou a atual crise financeira no país.
No Brasil, as vendas de veículos aumentaram 33% no primeiro bimestre deste ano
em relação a igual período de 2007, segundo a Federação Nacional da Distribuição
de Veículos Automotores (Fenabrave), em grande parte por causa da liberação
fácil do crédito. Os consumidores podem dividir a compra em até sete anos.
Na avaliação de Lessa, a atual situação do segmento de crédito para veículos é
ainda mais preocupante que a do mercado imobiliário americano. Isso porque,
segundo ele, em caso de inadimplência, o credor pode tomar o imóvel, bem de alto
valor. "Já o carro parcelado em 72 vezes só vale uma fração da dívida em caso de
falta de pagamento."
Juros em alta – Se a tendência de elevação de juros continuar, existe a chance
de o nível de inadimplência no Brasil estourar ainda em 2008, na opinião do
diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São
Paulo (ACSP), Marcel Solimeo. "A renda da população teve aumento nominal de 10%,
enquanto o volume de crédito cresceu 25% em 2007", afirma. "Os pagamentos estão
em dia até agora porque partimos de um nível muito baixo de endividamento do
consumidor", acrescenta. De qualquer forma, Solimeo alerta que parcelamentos de
70 meses para veículos exigem cautela.
De acordo com dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras de
Montadoras (Anef), a inadimplência no financiamento de veículos caiu de 3,24% da
carteira em janeiro do ano passado para 3,09% em igual mês deste ano. Mas o fato
de parte dos veículos financiados não ter seguro é mais um fator de preocupação.
Os especialistas observam que é grande a possibilidade de o comprador de um
veículo financiado que não faça seguro deixar de pagar as prestações caso perca
o carro (por roubo ou colisão, por exemplo). Há, ainda, os gastos extras
(manutenção, combustível, estacionamento e impostos), que tornam as despesas com
o carro muito elevadas para alguns consumidores. "Esses itens inflacionam o
valor mensal gasto com o veículo", diz Olivier Girard, diretor de transporte,
infra-estrutura e logística da Trevisan Consultoria. "E a cada dia a população
acorda mais endividada."
O aumento da taxa de juros para o financiamento de veículos não impediu o
crescimento das carteiras de Crédito Direto ao Consumidor (CDC) e leasing – aí
está mais um sinal de alerta, na visão dos especialistas. Segundo dados da Anef,
o juro médio subiu de 19,42% ao ano em dezembro passado para 21,27% anuais no
mês seguinte. "A tendência é a taxa cada vez mais alta comprometer a capacidade
de pagamento do consumidor brasileiro, que já está no limite de endividamento",
diz o presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP),
Waldir Pereira Gomes.
Cenário favorável – Já para o presidente da Anef e diretor do banco Toyota, Luiz
Montenegro, a situação atual no Brasil não favorece o aumento da inadimplência
no segmento. "Em geral, os compradores que deixam de cumprir os contratos fazem
isso depois de mais de dois anos de financiamento, o que diminui muito os
prejuízos para a instituição financeira", diz Montenegro.
Pesquisa recente do Programa de Administração do Varejo (Provar), da Fundação
Instituto de Administração (Fia), mostra que, na hora de comprar, o brasileiro
leva em conta o valor das prestações e não a taxa de juros embutida no
financiamento. "Para esse consumidor, mais importante que os encargos
financeiros cobrados é que as parcelas caibam no bolso", afirma o coordenador
geral do Provar, Cláudio Felisoni de Ângelo.
21/03/2008
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