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"Um comerciante
precisava antecipar o recebimento de R$ 120 mil para sua empresa. Não teve
dúvidas, recorreu a um agiota. "Os bancos não emprestam valores muito altos",
diz. Obteve R$ 80 mil, juros de 50%. Como garantia, alienou a casa em nome do
financiador. Quando recebeu os R$ 120 mil, tentou quitar a dívida, mas os juros
já tinham aumentado o montante. "Sobraram várias notas promissórias de R$ 1
mil", avalia o empresário, que não quis ser identificado.
Hoje, ele não faz mais isso. "Ano passado precisei de R$ 15 mil e fui a um
banco. Eles refinanciaram o meu carro e consegui o dinheiro", diz, aliviado.
Esse tipo de história parece cada dia mais comum. Os velhos agiotas vêm perdendo
espaço com o crescimento acelerado do crédito bancário. O espaço antes ocupado
pelo crédito informal, hoje pertence às financeiras.
"Uma vez ofereci empréstimo e o cara respondeu que ele era agiota e que também
tinha dinheiro para oferecer", brinca uma das promotoras que trabalha no centro
de São Paulo.
"Depois que vieram as financeiras, não vi mais agiotas", diz um plaqueiro que
anuncia a compra de ouro e prata também na região central de São Paulo.
"Empréstimo? Só nas financeiras. Agiota não tem mais, não", afirma o balconista
de uma lanchonete.
Uma caminhada pela região, antigo centro financeiro de São Paulo e diversas
promotoras de crédito oferecem dinheiro "sem comprovação de renda e sem consulta
ao Serasa". Em meia hora de caminhada, panfletos de diferentes bancos e
financeiras. "Você só precisa ter talão de cheque" diz uma das vendedoras. Um
carro também tem valor, já que o importante é ter uma garantia.
Segundo o economista Miguel de Oliveira, que acompanha esse mercado há alguns
anos, o volume caiu consideravelmente. Uma mostra de que este mercado encolheu
para os agiotas e da acirrada competição entre o mercado formal e o informal é a
queda das taxas cobradas.
Historicamente, as taxas da agiotagem girava em torno de 25% ao mês e não havia
mudanças. Nos últimos dois anos, as taxas caíram rapidamente e já atingem 18% ao
mês, em março deste ano, segundo levantamento feito por Oliveira para a
Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).
Alguns agiotas já têm taxas menores até do que o cheque especial dos bancos, diz
Oliveira. "Isso nunca houve".
Por outro lado, os juros do cheque especial para pessoas físicas registrou em
novembro seu piso histórico, de 7,5% ao mês, em média. É a menor taxa apurada
pelo Banco Central (BC) desde julho de 1994. Mas os juros continuam altos.
Algumas bandeiras de cartão de crédito cobram ainda mais: 17,95% ao mês, mais o
Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Assim, com a oferta crescente de crédito e as taxas em queda (para as pessoas
físicas as taxas caíram nove pontos percentuais ao longo do ano) houve um
redução espaço dos agiotas.
O próprio Banco Central reconhece o movimento. A bancarização "reduziu a oferta
informal de crédito", avaliou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir
Lopes, em entrevista à imprensa. Segundo ele, o maior número de brasileiros com
acesso aos bancos, aliado à queda dos juros, tirou clientela dos agiotas.
De fato, o volume de contas correntes cresceu de forma acelerada. Hoje são mais
de 100 milhões, sendo 80 milhões de contas de pessoas físicas, segundo dados da
Federação Brasileira de Bancos (Febraban), um aumento 44% desde 2002. O número
de cartão de crédito também cresceu bastante, atingindo quase 80 milhões.
Desde 2004, o volume de crédito mais do que dobrou, passando de R$ 417 bilhões
para R$ 908,8 bilhões, em novembro. No próximo ano deve superar a marca de R$ 1
trilhão. Vários fatores colaboraram com essa disparada dos empréstimos formais:
estabilidade econômica, queda das taxas de juros e a elevação do emprego e da
renda. Além disso, alguns acertos legais facilitaram o financiamento de bens,
com a alienação fiduciária, que reduziu os riscos para os bancos.
A necessidade de expandir a oferta com a queda dos juros levou ainda o banco
para o mercado de mais baixa renda, alvo fácil dos agiotas. "Tem crescido a
demanda por informações dessas classes mais baixas por parte das financeiras",
explica a analista da Equifax, Analia Pinillos.
"Há uma dificuldade de identificação das pessoas de baixa renda quanto ao
aspecto comportamental, onde mora, qual compromisso tem com as dívidas. Cada
classe tem seu estilo, hábitos diferenciados, consumo diferenciados", diz
Pinillos.
Os agiotas não precisam se preocupar com esse tipo de informação. A forma de
cobrança do mercado informal também não segue métodos muito ortodoxos, mas é
eficaz. "A forma como eles falam, assusta. Eles batem na mesa, chutam
cadeira...", lembra uma das vítima dos agiotas, que também não quis ser
identificada. "Dá medo".
Os empréstimos mais comuns nos agiotas são os liberados através da emissão de
cheques pré-datados que vão de um a doze meses. Outra prática muito comum é a
simulação de uma compra através de cartão de crédito. O dinheiro é liberado para
o agiota, mas nenhum produto é entregue. O agiota tem a garantia de recebimento
e quem assume o risco, mesmo sem saber, é a administradora do cartão.
O mais comum, no entanto, ainda é a alienação do automóvel dado como garantia,
ou mesmo do imóvel, justamente as modalidades que mais cresceram no sistema
formal. Já tem financeiras aceitando a "troca com troco" até do imóvel, como o
Banco Fibra e a Brazilian Mortgages.
Fonte jornal Valor Econômico - Fernando Travaglini
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